11.9.07
e N. vinha caminhando pelo lado azul do dia, bebendo o amargo da Grande Perda. ia tentando salvar do desbotamento da memória uns detalhes, aquele sorriso, pra esconder no bolso e olhar quando surgisse a vontade de sentir de novo, como se ainda fosse vivo. porque quando a gente perde cd e chave, é um pingo de dor na hora, mas se esquece rapidinho, e eles não nos visitam nos sonhos pra matar a saudade, agora quando a gente perde gente, a dor é comprida. N. não sabia o que era perder. já tinha deixado de ganhar umas vezes, muitas vezes, mas perder perder, não conhecia. parabéns, N. descobriu um pedaço grande da vida aí, o pedaço em que se perde de verdade e não tem jeito, e agora já pode até escutar todas as músicas sobre Grande Perda que nunca disseram nada de compreensível, só exagerites, ah, vai, supera, né. não supera não, e nem quer superar, quer deixar bem vivo. mas a memória gosta da gente mais que a gente mesmo e quer nos livrar das lembranças dolorentas, aí um dia esconde aquela conversa na cama, no outro, dilui a imagem da luz da manhã no corpo sonolento e assim sorrateiramente até que N. esquece, esquece a dor, esquece o bonito que era, esquece como a vida podia ser mais. esquece. e sorri de novo sincero, peito aberto, menor, mas aberto.